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A Escola que Combina
com o Nosso Tempo

Andrea Travassos e Rita de Cássia Oliveira
"Uma pessoa do início do século XX entra num túnel do tempo e sai no século XXI. Fica confusa, impressionada, chocada com tanta mudança: ruas cheias, muita imagem, movimento, barulho, prédios altíssimos, trânsito, lojas, consumo... Até que entra numa sala de aula e respira aliviada... ali se sente em casa, pois quase nada havia mudado."

Essa historinha fala sobre uma resistência a mudanças, velha conhecida de todos nós. Ao mesmo tempo essa mesma historinha pode gerar conclusões precipitadas. O fato de encontrarmos uma sala de aula com carteiras enfileiradas, alunos realizando a mesma tarefa e um professor na frente escrevendo num quadro não quer dizer necessariamente que se trata de uma pedagogia ultrapassada. Assim como uma sala de aula organizada em grupos, com projetor de data show, notebooks e um professor circulando não esgotam as características de uma escola do futuro.
O espaço escolar tem a particularidade de ser do conhecimento de todas as pessoas, já que o vivenciaram como alunos. Porém, podemos afirmar que ninguém quer consultar um advogado que não esteja atualizado, nem um médico que desconheça as últimas pesquisas e discussões da área, mas muitas vezes quer uma escola muito próxima da que experimentou, isolando a educação do mundo que se transforma a cada instante.
Por que será que isso acontece? Qual seria então a escola que acreditamos ser a que melhor responde às demandas de nosso tempo?
Acompanhar a corrida desenfreada da tecnologia e dinamizar a organização física da sala de aula são, sem dúvida, aspectos importantes de uma escola mais encaixada no mundo atual. Mas é imprescindível que junto a isso, uma posição política, humana, afetiva, ética, cultural, social e psicopedagógica norteiem a prática docente.
Tal postura não aparece numa imagem, nem no recorte de um momento. Ela está nas entrelinhas de um dia-a-dia de relações tão diversas e particulares, próprias de um espaço onde coletivamente se aprende a aprender, a conviver, a construir uma relação instigante com o conhecimento, a buscar, a relacionar, a opinar, a se expressar nas múltiplas possibilidades de linguagem. Entendendo desta forma o espaço escolar, importa menos se a sala de aula está de um jeito ou de outro, pois os professores sabem o que cada aluno ou aluna tem de possibilidades, em que aspectos precisam ser mais ou menos provocados, que situações didáticas podem favorecer e motivar o interesse daquele grupo, que desdobramentos interessantes podem desenvolver para cada tema de trabalho, de que formas garantir o espaço da conversa para ouvir os alunos, seus saberes, suas dúvidas, suas vivências.
A escola que acredita numa formação nunca acabada, que lê, discute e reflete a teoria e sua prática, que problematiza, que questiona, que não se acomoda é a escola que está mais preparada para formar o aluno para esse mundo em permanente transformação.
A escola que se escuta, que se vê, que desenvolve um olhar sensível sobre o percurso de cada aluno, que vive uma dinâmica permanente - que respira e se abre para o novo, sem abandonar seus alicerces humanistas, o humor e o espírito lúdico - é a escola que contribui para que todos os sujeitos que passam por ali cresçam como seres humanos independentes e criativos, buscando uma relação de curiosidade e respeito pelo conhecimento e pelo ponto de vista do outro, sabendo errar e acertar, sendo flexíveis e compromissados, compartilhando seus saberes e construindo um estar no mundo amplo e interdependente.
A escola que combina com o nosso tempo parece ser aquela que, quando mergulhamos fundo no seu fazer pedagógico, encontramos uma escola completamente nova, naturalmente diferente de toda a experiência que tivemos ou que nossos pais tiveram como alunos, porque é uma escola que está viva, em sintonia com nosso tempo histórico e todas as relações sutis e complexas que o caracterizam.