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A outra janela

Cristovam Buarque, senador
Quando, há algum tempo, os aviões começaram a atra­sar, todo brasileiro sabia quem eram os responsá­veis: a Anac e seus direto­res. Mas quando dezenas de crianças são mortas, o Único caminho é recor­rer à policia para apurar o culpado pelo malfeito, não há ninguém para responsabilizar e cobrar o fim da sistemática violência contra crianças.
A população fica estarrecida e hor­rorizada por alguns dias ou meses, mas pouco depois esquece os crimes mais brutais, e nem sequer se pergun­ta se os bandidos já foram soltos.
Os parlamentares passam dias falando sobre o assunto. Acontecem passeatas, reuniões; há lágrimas, ver­gonha. Mas por pouco tempo. Se uma tragédia afetar crianças Indígenas, como a morte por desnutrição, há pelo menos a Funai. Para as outras, há um Conselho em silêncio diante dos crimes, sem culpa, sem respon­sabilidade, sem poder.
Quando, em 2007, foi assassinado o menino João Hélio Fernandes, achamos que a barbaridade daque­les que o arrastaram pelas ruas do Rio de Janeiro tinha chegado ao limi­te. De lá para cá, vimos uma menina de 15 anos mantida presa em uma cela da cadela de Abaetetuba, no In­terior do Pará, juntamente com 20 homens; uma menina de 12 anos tor­turada e mantida como escrava pela mãe adotiva em Goiânia; uma meni­na de 9 anos espancada, estuprada e enforcada em Santo Antônio do Des­coberto, em Goiás. No Ceará, uma menina de 3 anos, com o nome de Luana de Jesus, morta depois de es­tuprada; na semana anterior, no mesmo Ceará, uma de 7 anos morreu da mesma forma. Dezenas de casos de violência contra crianças têm aparecido nos noticiários nestes últimos anos.
Agora, a polícia diz que um pai e sua esposa assassinaram uma meni­na de 5 anos, jogando-a pela janela do sexto andar do apartamento on­de moravam, na tentativa de enco­brir um estrangulamento cometido minutos antes. De tão inverossímil, temos o direito de duvidar, antes do julgamento, que uma tragédia tamanha tenha acontecido assim. Mas quando o nosso poeta disse que "um sonho sonhado por todos é realidade" queria dizer também que um pesadelo sofrido por todos é realidade.
Nada pode reduzir a responsabi­lidade de cada um dos que come­tem crimes contra nossas crianças. Mas quando os bandidos são mui­tos, não se pode ignorar que há algo mais, uma espécie de entendimento social que induz, ou pelo menos to­lera a maldade. Quando os crimes se sucedem, cada um parecendo ser único e nos fazendo esquecer o an­terior, algo doente está acontecen­do na sociedade.
A principal doença está no esque­cimento. A cada barbaridade, chora­mos, mandamos fazer camisetas com fotos da vítima, vamos às ruas pro­testar, assistimos com alívio aos ban­didos serem julgados, ficamos com medo de ver a Justiça libertá-los, e quase sempre nos indignamos quan­do eles são soltos, pouco tempo de­pois. Estes são os vetores de nossa doença: a impunidade, o esqueci­mento, a tolerância. Tolerância com os crimes e com a realidade social que induz a mais crimes.
Se o pesadelo sofrido por todos faz a triste realidade, a triste realidade induz ao pesadelo. Toleramos e es­quecemos os crimes bárbaros por­que vivemos na barbaridade. No mesmo momento em que acontece o pesadelo de um pai jogando a filha pela janela, para esconder o crime de estrangulá-Ia (caso se confirme a de­núncia da polícia de São Paulo), crianças brasileiras morrem de den­gue, por omissão de autoridades e conivência de todos nós. No dia se­guinte à morte da Isabella Nardoni, como nos dias seguintes à morte de João Hélio Fernandes, centenas de milhares de crianças acordaram sem ter o que comer, milhões foram à es­cola apenas pela merenda, e saíram da escola sem aprender qualquer coi­sa nova. Estão sendo deixadas para trás, atiradas pela janela da História. Serão mortas-vivas no desemprego, no baixo salário. E estarão condena­das a ver, depois, seus filhos também jogados pela janela pela qual, de for­ma mais discreta, são jogadas mi­lhões de crianças sem futuro, portan­to sem vida, mesmo quando não são estranguladas e jogadas pela janela de um apartamento.