novembro -2013

A Proposta

José Saramago começa a sua "A maior Flor do mundo" assumindo uma dificuldade de escrever para crianças, mas diz que, ainda assim, gostaria de contar uma história para elas, e conta. Termina sugerindo que gostaria de ler histórias para crianças, escritas pelo seu leitor - supostamente criança - só que muito mais bonitas. A proposta para as turmas foi escrever essas histórias bem bonitas e dedicá-las às crianças menores da Sá Pereira. Fazemos o convite para a leitura de “A maior flor do mundo” e das nossas histórias inspiradas por ela.

Reconto 1, especialmente para as F5.

Por André Saback Saint-Clair

Era uma vez um velho muito velho que morava numa vila muito pequena. Esse velho costumava passar as tardes na varanda de sua casa, observando os pássaros indo para o bosque e sumindo dentro das árvores.

O velho gostava de ir para o bosque quando era pequeno, mas não ia lá há muito, muito, tempo. Não se lembrava mais de como era.

Um dia, quando o velho estava olhando as andorinhas, se levantou e foi andar no bosque.
Quando o velho chegou, viu outro velho entrando na floresta, então o seguiu. Quando o velho perdeu o outro de vista, continuou a caminhar bosque adentro.

De repente o velho encontrou um homem cortando lenha, sozinho. Quando o homem viu o velho, começou a entrar ainda mais pelo bosque. E o velho o seguiu.

Quando o velho perdeu o homem de vista, continuou a caminhar bosque adentro.

De repente, o velho encontrou um rapaz pescando em uma lagoa pequena. Quando o rapaz viu o velho começou a entrar ainda mais pelo bosque. E o velho o seguiu.

Quando o velho perdeu o rapaz de vista, continuou a caminhar bosque adentro.

De repente, o velho encontrou um garoto comendo maçãs. Quando o garoto o viu, começou a entrar ainda mais no bosque. E o velho o seguiu.

Quando o velho perdeu o menino de vista, continuou a caminhar bosque adentro.

De repente, o velho encontrou uma coisa.

O velho encontrou uma flor tão grande, mas tão grande, que chegava a tocar o céu. E o velho subiu.

Quando o velho chegou ao topo, se inclinou para ver o que tinha dentro da flor, mas tudo que viu foi a si mesmo.

O velho viu a si mesmo quando passeava pela orla do bosque.

Depois viu a si mesmo quando era um homem, que passava a tarde inteira cortando lenha.

O velho viu a si mesmo quando era um rapaz, que pescava peixes para vender na feira.

Depois, viu a si mesmo quando era apenas um garoto, que subia em árvores para comer maçãs.
Então, o velho viu a si mesmo, como se estivesse na frente de um espelho.

Depois, se deitou na flor,

E dormiu...

Reconto 2, especialmente para as F1.

Por Davi, Francisco e Pedro Sá

Eu estava cansada, acabada.
Minha vida não valia mais nada.
Estava abandonada.

Há muito tempo eu era bonita
grande, colorida,
mas uma bruxa acabou com a minha vida.

Fui enfeitiçada,
e por cem anos dormi forçada,
até ser amada, regada.

Um bravo garoto me encontrou,
com todo seu carinho me levantou
regou, regou e me (re)acordou.

Reconto 3, especialmente para as F4.

Por João Pedro, Tomás e Vitor

No topo do monte havia uma flor, mas ela era diferente das outras. Para começar, ela era nova, mas devido ao seu tamanho as pessoas a viam como uma flor bem mais velha do que realmente era. Estava morrendo, mas nenhuma criança olhava para ela, quem iria reparar numa flor tão velha e feia? Um garoto via, bem pequeno ele era, e uma coisa o incomodava, nem os adultos olhavam para a flor, nem os mais velhos reparavam nele, só ele via, só ele.
Um dia, quando o sol se punha, ele foi até o topo do monte com um balde para molhar a flor, molhou. O balde rapidamente esvaziou, a água que tinha botado não era o suficiente, então o menino correu em direção a sua casa em busca de mais água.
Regou a planta pela segunda vez, enquanto descia do monte ele tropeçou, os seus pés ficaram muito machucados, mas a força de vontade dele era gigante, regou a planta pela terceira vez e descansou ao lado dela
Os pais dele estavam muito preocupados com o seu sumiço, e foram a sua procura. Seu pai o achou em cima do monte dormindo embaixo da flor. Não haviam reconhecido a flor, pois nunca haviam visto algo tão grande e tão belo.

Reconto 4, especialmente para as F2.

Por Alice Turino, Julia e Stephanie

À sombra da flor
Um pequeno menino olhando para fora, olhando o mundo. Queria se aventurar a subir uma colina na qual nunca fora antes. Lá em cima avistou uma flor, não menor que ele, que era bem pequenino. Era como se a flor pedisse ajuda. Como queria se aventurar nas alturas, então resolveu tomar uma atitude. Correu em direção ao Rio Nilo, juntando as mãos em conchinhas, recolheu toda a água possível. E partiu a caminho. Repetiu essa ação muitas e muitas vezes e em todas elas apenas três pingos de água chegavam à flor, que ia se erguendo em direção ao céu. Já quase anoitecendo, o pequeno menino, depois de tanta valentia e coragem, se deitou a sombra da flor e adormeceu. Ela, satisfeita, soltou uma pétala para acolher o menino.

Reconto 5, especialmente para as F4.

Por Alice Amana, Duda, Laura e Maria Helena

Há muito tempo, em uma aldeia, existia um menino de família humilde.
Na realidade, vivia poucas aventuras, as que sua condição lhe permitia, porém, em um dia ensolarado algo diferente o chamou a atenção, um pequeno besouro, que o levou para um lugar no qual não conhecia.
E nesse lugar descobriu árvores, riachos, flores e borboletas - o que para nós parece normal, mas para a realidade do menino não havia nada igual. No alto de uma montanha estava uma bela flor, mas já quase sem vida, que deixou o menino completamente abismado. Com sua força e coragem, ele resolveu correr para buscar água. E foi, voltou, foi de novo e voltou, gota por gota e assim ele carregou a água em sua mão, e a flor de pouco a pouco foi revivendo. A essa altura, seus pais, já preocupados, resolveram ir ao encontro de seu amado filho.
Quando seus pais o encontraram, o menino estava coberto por uma enorme pétala da flor, já tão forte e bela, flor amarela.

Reconto 6, especialmente para as F3.

Por Carolina e Luiz

Em uma cidade pequena havia um menino chamado Lucas, que tinha 10 anos. Sua vida sempre foi cercada de grandes aventuras e sua família era muito ligada à natureza.
Um belo dia Lucas decidiu ir à busca de suas aventuras diárias junto com seu cachorro Spoke. Eles decidiram seguir uma trilha dentro de uma floresta bem perto de suas casas. Quando Lucas botou seu pé na trilha, Spoke começou a correr, só que ele corria muito rápido diferente de Lucas, que era muito calmo e bem lerdo. O menino começou a correr gritando:
- Spoke! Spoke! Cadê você?
Só que nada do cachorro aparecer, tudo que ele via era apenas verde e árvores, árvores e verde. Depois desse desespero, o menino teve a brilhante ideia de pegar um pacote de biscoitos, próprio para cachorros que levou por precaução, no caso de Spoke ficar com fome. Lucas começou a espalhar pedaços do biscoito no chão, para ver se o cachorro aparecia. Porém nem assim, nenhum sinal do animal.
Quando já estava escurecendo e Lucas já não aguentava mais andar, Spoke apareceu com um girassol em sua boca. O menino começou a agarrá-lo com abraços e ficou dando beijos em sua cabeça, e nem percebeu que a flor que o cachorro tinha recolhido estava seca e mal cuidada. Então Lucas decidiu que iria levá-la para casa e cuidá-la, assim como cuidou de seu Spoke.
A partir daquele dia o menino e o cachorro não se desgrudaram mais e aquele girassol foi a lembrança guardada de um dia cheio de aventuras que nunca será esquecido.

Reconto 7, especialmente, para as F4

Por Bia e Marina

Ao contrário de vocês, minha infância não foi tão divertida. Até que no início fui bem cuidada e amada, depois cresci, fui maltratada, e abandonada. Maltratada pelo calor.
Abandonada pela natureza. Fiquei lá sozinha, durante meses, vendo o vai e vem da noite, contando as horas para o sol se pôr.
Já sem esperanças, conheci Joaquim, altura razoável, com boa aparência, loiro, de olhos cor de mel. Sabe amor a primeira vista? Ai, ai... E se eu te contasse que ainda nem sabia o que, em futuro bem próximo, ele havia de fazer para mim?
O menino se aproxima e me analisa cuidadosamente, do pé a cabeça, cheguei a ficar vermelhinha. Primeiro minha raiz, toda verdinha, já precisando depilar, logo depois meu caule já corcunda, e em seguida minhas pétalas, cor de dia, já toda desbotada. E foi em um instante que vi meu amor correr, e ir sumindo aos poucos dentre as árvores. A essa altura, já não tinha água para chorar, sombra para me proteger ou abraço para me confortar. Estava lá. Lá aonde?
Em um lugar quente, vazio. Foi quando veio Joaquim, com suas mãos em forma de concha e seu cabelo dourado de sol. Não sabia o que havia em sua mão. Até que, em segundos, ele se
ajoelhou ao meu lado, abrindo-as rapidamente, realizando um dos meus desejos... Agora eu tenho água pra chorar.
Ele sumiu e reapareceu, ele foi, mas voltou. Ele sumiu, mas reapareceu, ele foi, mas voltou. Ele sumiu e apareceu, ele foi, mas voltou. Uma hora cansou, deitou e por ali ficou. E depois de tantas sumidas e aparições, idas e voltas. Cresci e floresci, do alto podia ver a aldeia.
Resolvi retribuir um pouco o que o menino tanto me deu, conforto e alegria. Inclinei um pouco meu caule, fiz sombra, e lançando sobre o menino uma pétala, fiz seu cobertor.
Após um tempo, vieram dois Joaquins mais altos e os levavam de mim, mas todos os dias meu amor vinha me visitar.
Essa é a minha história, espero que um dia todos consigam achar um Joaquim para casar.

Porque é Preciso Transbordar - Livre Criação, para todas as idades.

Por Antonia e Rosa.

Ela só chorava.
Chorava até demais, de dar pena.
Chorou tanto, até um dia entender como se chora.
Pensava em algo bem triste, uma coisa lá do fundo, os olhos, então secos, começavam a ficar muito molhados, porque a torneira dos olhos começou a pingar. Começava como um gemidinho, choramingo, pra depois virar um berreiro.
Sabia porque as lágrimas eram salgadas: eram água do mar. Guardava um oceano dentro dela, um oceano grande e azul,
gostava de pensar nos peixinhos que lá habitavam. Peixe palhaço, o que ria de tudo; a água-viva transparente e tímida; o peixe espada, o corajoso; e mais uma dezena
deles. Chorava então, transbordava, para ver um pouco de seu oceano. Era sempre assim. Um dia cresceu. E com toda aquela altura, não achava certo chorar, prendia então o choro, "onde já se viu menina grande chorar?" Ela não sabia o porquê, mas sabia
que não podia. Começou a se sentir mal. Sentiu seu corpo balançar, sabia que seu mar, naquele dia, estava cheio de ondas:
" O que está acontecendo comigo?"
Pensou em perguntar para a mãe, mas ela já estava longe. Para o pai, mas ele não saberia.
E isso deu uma tristeza tão grande, que ela não segurou e chorou, chorou, chorou.
A primeira coisa a sair dela foi uma baleia, a baleia das grandes tristezas, de uma tonelada.
Saiu depois, direto, o peixe- espada, aquele de muitas brigas passadas...
"Não sou uma princesa e não mando nem no meu hamster", lá se foi o peixe-rei.
"Sou cheia de todas as cores", saiu a água-viva. A raiva foi embora junto com o tubarão grande e bravo.
No fim, saiu aquele polvo enrolado, que estava embolado em sua barriga.
O peixe-palhaço ficou, porque no meio do choro, aliviada, lembrou que adorava rir.
E então começou a rir, rir até demais, de dar pena.
Chorar e Rir.
Chorar de rir.
A gente precisa transbordar.
Quis continuar a entender, resolveu
pesquisar:
- Mãe, porque a lágrima é salgada?
A mãe, que era uma ótima inventora de
ideias, respondeu:
- Porque temos um mar dentro da barriga e, às vezes, transborda. Você já sentiu a barriga mexendo e fazendo barulho?
- Outro dia mesmo eu senti!
- São os peixinhos nadando.
- Peixes? Nadando?- Falou feliz, antecipando a brincadeira.
- É. Peixes. Nadando.Tem gente grandona e brava que tem um tubarão, os que riem por qualquer bobeira, esses têm
um peixe-palhaço.
- Então, mamãe, tem aquelas pessoas que a gente nem vê, são quase transparentes, têm uma água-viva? Começaram a rir.
- Sabe seu tio Argemiro? Tem muitos camarões. Já reparou como ele fica vermelho quando está com raiva? Tão vermelho, fervendo, sai até fumaça do nariz!
- E o Dudu, que é muito valente, sabe que peixe ele tem? Um peixe-espada, pronto para me defender!- disse orgulhosa
do primo.
- A Dona Marita, nossa vizinha, de tão enrolada a coitada, deve ter um polvo. Às vezes eu acho que também
tenho um polvo.
- Mamãe, quem guarda uma tristeza de uma tonelada no fundo do coração tem uma baleia?
Se olharam nos olhos, sorriram e continuaram:
- Quem tem o peixe-rei na barriga pensa que mora num castelo e manda em todo mundo!
Ela e a mãe amavam essas brincadeiras!
O tempo foi passando.
"Já sou grande. Não posso mais chorar."
Começou a segurar o choro, por coisas pequenas - um machucado, uma farpa no dedão - ou maiores - briga com amigos, discussão de pai e mãe, não ser convidada para a festa da amiga...
Até que um dia, acordou com o coração pequenininho e a respiração curta.
"Por que eu estou assim?"
Pensou que podia perguntar para a mãe. Mas a mãe já estava longe e aquelas ideias inventadas também.
E isso deu uma tristeza tão grande, que ela
não segurou e chorou, chorou, chorou.
A primeira a sair foi a baleia de uma tonelada de tristeza.
Foi um susto! Não conseguia mais parar.
Lembrou de muitas brigas na vida e o peixe-espada pulou fora.
"Não moro num castelo e não mando nem no meu hamster", lá se foi o peixe-rei.
"Sou cheia de todas as cores", saiu a água-viva.
A raiva foi embora junto com os camarões e o tubarão grande e bravo.
No fim, saiu aquele polvo que estava embolado na sua garganta.
O peixe-palhaço ficou, porque no meio do choro, aliviada, lembrou que adorava rir.
Sentiu que respirava melhor.
O coração estava grande de novo.
Chorar. Rir.
Rir até chorar.
Chorar de rir.
A gente precisa transbordar.