novembro - 2013

A Proposta

Quem nunca pensou em dar vida a objetos do nosso dia a dia? Dentre as tantas obras de Machado de Assis há vários apólogos, textos repletos de ironia, uma visão crítica da sociedade e questionamentos sobre a vida. Depois de ler "Uma história comum", narrada por um simples alfinete que conta sua trajetória, e "Um apólogo", que traz um áspero diálogo entre uma agulha e uma linha, convidamos as crianças a criar personalidade para alguns objetos e escreverem sua história. Apresentamos nesse Informe Literário, alguns desses textos.

A vida de um espelho

de Hanah
Eu já fui areia, depois espelho, mas fiquei velho, quebrado e fui jogado no mar. Voltei a ser pura areia e minha história irei contar:
Como vocês sabem, uma areia sofre muito. As pessoas pisam, cospem e urinam em mim. Mas um dia, uma linda menina pegou um pedaço de mim, me colocou num balde e me levou para sua casa. Quando cheguei, me deslumbrei com o que tinha lá.
No dia seguinte, quando acordei, não estava mais na casa, eu estava num lugar completamente diferente, cheio de poções químicas muito estranhas. De repente, eu vi um homem que me disse:
– Desculpe-me, areia, mas agora vou te transformar em puro vidro!
Então pensei alto: “Não estou chateada com isso, estou felicíssima! Ser vidro é muito melhor que ser areia.”
Mas é obvio que o homem não entendeu nada e começou o procedimento.
Quando já tinha virado vidro, o homem me deixou mais feliz ainda, ele me transformou em um lindo espelho com moldura e tudo.
Logo, fui colocada à venda e uma menina horrível me comprou. Ela me tratava muito mal. Ela me agredia de todas as possíveis maneiras por causa de seus problemas pessoais, sem eu ter nada a ver com nada. Comecei a ficar deprimida, a escurecer e a diminuir de tamanho a cada dia. Quando percebi, estava virando areia de novo. Para não deixar a casa dela suja, a menina horrível me levou para a praia.
Então, minha linda menina me pegou num balde e me levou para sua casa. E tudo começou de novo...

Jogar-me fora?

de Tom
Sabem quem sou? Vou dar dicas. Sou um objeto usado no calor. Refresco e tenho até tipo de velocidades. Adivinharam?
Sou um ventilador.
Para começar a história, num dia de calor, estava refrescando meus pobres donos, que estavam discutindo sobre seu dinheiro.
- “Hôme”, eu sei que estamos “economizano”, temos “din-din” para “comprá” um ar condicionado, mas esse ventilador já ajuda!
- Que nada, “muié”! Eu obrigo “ocê” a “concordá” comigo!”
Quando meu dono falou isso, eu não resisti e provoquei um ciclone imenso, destruindo tudo. Todas as coisas saíram voando pelos ares, inclusive eu.
Um tempo se passou e fui encontrado por um velho senhor, com aproximadamente 70 anos e pensei:
- Será que esse homem é de confiança? Não sei...Mas, veja sua cara, acho que é sim.
O velhinho me pegou no lixo, me levou para seu lar e me consertou.
Em dezembro, fui dado para seu filho, que me utilizou bastante. Afinal, era verão, e acho que deveriam ser refrescados.
Vivi lá por muito tempo.
Alguns anos depois, fui para o ferro-velho, onde morri.

Ciclo da Vida

de Josué
Olá! Eu sou a embalagem do xampu anticaspa "head & shoulders". Você deve me conhecer por aquele vídeo "donti révi caspa". É, eu fiquei famoso com isso.
Eu fui para a casa de um milionário com caspa, provavelmente. Parecia que ele precisava de mim. Percebia que era muito útil e conhecido pois todos dessa casa me usavam e me amavam. É, minha vida era um luxo.
Só que um dia, acordei no lixo! É, fui literalmente do luxo ao lixo.
Isso me deixou muito mal e desapontado, mas algo me salvou... Foi uma empresa de guaraná. Ela me reciclou e agora sou útil novamente. Mas, por quanto tempo?

A vida de uma lapiseira

de João Pedro
– Ai, como é difícil essa minha vida, mexendo e remexendo de um lado para outro, soltando grafite de um lado para outro, escrevendo e escrevendo cada vez mais! Com essa minha roupa de plástico, muito diferente da do lápis que é feita de madeira. Minha ponta fina só pode ser usada por uma pessoa que seja cuidadosa, porque um dia minha ponta vai acabar. Bom, essa é a única vantagem do lápis sobre mim, se for nos comparar eu vou ganhar porque quando me usam, a letra sai muito mais bonita, sai suave e delicada...
A lapiseira estava nessa reflexão quando chega o lápis e diz:
– Olá, lapiseira! Está falando o quê?
– Bom, eu estava falando como eu sou chique! Bem mais chique que você!
– Ah, algum dia! Continue sonhando!
– Ah, se você é tão espetacular assim, me conte suas vantagens e desvantagens que eu quero saber.
– Isso é bem fácil! Minha ponta não quebra facilmente, sou mais resistente..
– Isso é o que você acha, né, querida?
– Eu posso ser usada por qualquer um sem quebrar um pedaço da minha ponta!
– Não foi o que ouvi na linha seis.
– O quê? Você estava me espionando?
– Sim – disse o lápis com coragem. – Eu sei que é errado, mas eu tinha que espionar, né?
– Eu sabia! Vocês lápis são todos iguais! Vou-me embora daqui. Isso foi a gota d'água.
– Que bom! Não aguento você se gabando para cima de mim. E nunca mais volte para cá.
Então, a lapiseira se retira e o lápis fica só. O lápis viveu muito feliz sem a lapiseira, a lapiseira sem o lápis e acabou-se a história.

A estátua

de Vicente
Acenderam a vela que há segundos estava dentro da caixa, botaram-na do meu lado. Não posso descrever o que a vela
sentia, mas ela chorava lágrimas quentes, que escorriam pelo seu corpo e pingavam no chão. Como deixava o chão sujo,
o homem encapuzado que a havia acendido, pediu para um dos outros seis homens encapuzados para pegar um pires.
Sutilmente, o homem que recebeu a ordem se levantou do trono em que estava e abriu a porta ao lado. Não consegui ver muito bem o que havia do outro lado, parecia uma estátua enorme de uma entidade com o corpo deformado. Atrás da estátua havia duas cortinas escondendo algo. O homem fechou a porta.
Fiquei assustado, aquela seita era estranha, aqueles homens encapuzados me assustavam, e minha função também era tão estranha! Eles me veneravam mesmo sabendo que sou barro puro. Não sabia porque me veneravam. Eu não sabia o que eu representava.
Então, tente me desculpar leitor, não posso lhe dizer o que sou e você terá de permanecer no mistério. Só posso lhe dizer que sou muito frágil e que aqueles homens guardam coisas dentro de mim, ervas, pequenos objetos e outras coisas que ainda residem dentro de mim. Nenhuma delas fala, então não podem me dizer o que sou, por isso fico também no mistério.
O homem que há pouco havia saído, voltou com o pires. A última coisa que me lembro de ter visto foi o pé do homem vindo na minha direção e me esmagando.
-Olha o que você fez - disse um dos homens - vai varrer isso!
O homem pegou uma vassoura e começou a me varrer.
Agora cá estou em cacos escrevendo isto e chorando lágrimas quentes como as da vela…

Encadernando memórias

de Vítor Melo
Eu nasci de madeira de eucalipto e couro de vaca. Fui feito por um artesão escravo no nordeste do Brasil e vim parar numa livraria do centro do Rio de Janeiro. Fui comprado por um ex-escravo que trabalhava em uma casa onde morava com sua família. Chegando lá, fui entregue ao seu jovem filho.
- Aqui, filho. Não tenho muito o que dar-lhe, portanto, dou-lhe esta cousa.
- Um caderno! Obrigado, papai!
O menino já me pôs sobre a mesa e tomou a escrever.
- Vou escrever uma cousa que nunca dantes pude! Lá vai!
Começou a escrever uma história sobre um autor-defunto que era pessimista e ambicioso, um anti-herói. Interessei-me pela dedicatória ao "Verme que devorou seu cadáver".
Alguns anos mais tarde, o pai do menino, agora um rapaz, faleceu, e se juntou a sua mãe e sua irmã. Antes de falecer, casara-se com Maria Inês da Silva, na matriz do Engenho Velho. Ela vendia doces, e o rapaz a ajudava, além de ser tipógrafo.
Um dia, viu que levava mesmo jeito para escrever; já havia escrito poemas, crônicas, sonetos, críticas de teatro, e até
algumas reportagens em jornais pequenos. Então, resolveu publicar o livro do autor-defunto. Foi um quase-sucesso, pois só gostava quem entendia. Contou várias histórias e romances nos livros que escreveu, como amigos de infância que se casam, uma moça pobre e órfã que recebe uma herança, e acreditam que está apaixonada por seu irmão, já que pensam que seu pai na verdade é o amante de sua mãe, outra sobre um menino de 15 anos que idolatra os braços da esposa de seu patrão, que tem 27 anos, tem Alienista, Missa do Galo, uma Cartomante que erra tudo, Espelho... Depois disso tudo, fundou a Academia Brasileira de Letras e continuou escrevendo até o meu fim, quando me guardou até sua morte em 1908, mas fui passado de geração em geração. O nome do meu dono era Joaquim Maria Machado de Assis.

O chumaço de algodão

de Sofia Coelho
Eu estava parado, parado pra não acabar voando por aí. Falando assim, até parece estranho, mas esse é o triste destino de um chumaço de algodão. E como eu sei? Bem, eu vou contar a minha história.
Era uma manhã ensolarada. Ensolarada pra não dizer fervente. Conceição, a mucama da casa, estava tecendo um vestido. O vestido era lindo, tinha uma linha fina e branca.
Ela também estava a tecer uma almofada, que também era linda.
No dia seguinte, eu vi que Conceição estava estofando aquela linda almofada. Bem, eu tinha a esperança de entrar ali, mas ao invés disso, um vento me trouxe pra cá, digo, para a lixeira.
Esse foi meu triste destino, um destino sem final. Mas fazer o quê?
Algumas horas depois da minha chegada àquele lugar, eu ouvi a patroa de Conceição falando a ela que não gostara da almofada e que a jogaria fora.
Bem, de um jeito ou do outro, a vida realmente me daria um “xeque-mate".

Uma história em um dia de chuva

de Flora G. Berman
Um dia eu estava lá, na rua, na chuva, sendo segurado por uma moça, uma moça muito bonita.
Eu era novo, novinho e estava todo feliz de chegar em casa, na casa da moça, da moça muito bonita.
Quando chegamos ela me pôs no porta casaco no corredor, e me pôs justamente do lado de uma casaca. Ela era assim: toda vermelhinha cheia de quadradinhos amarelos e um capuz, era linda!
- Olá, amiga! - eu disse.
- Olá! - ela disse – Você tem muita sorte sabia?
Eu estranhei muito, mas perguntei:
- Por quê ?
- Porque você sempre é usado, sempre chega em casa todo acabado, diferente de mim. Eu poderia ter sido comprada por uma moça que me usasse sempre, em casa, em festas, em reuniões de trabalho, mas não, eu tinha que ser comprada por uma moça que só me usou uma vez na vida e depois me pôs aqui.
Nessa hora a moça, a moça muito bonita, nos pegou, eu e a casaca e disse para ela:
- Está na hora de você ser minha companheira, né ?
Ela, a casaca, sorriu, cobriu a moça, a moça muito bonita, e eu cobri as duas.
Fomos andando, na chuva, até uma casa. Era azul e branca cheia de detalhes brancos, tinha um quintal, verde e grande.
De repente, a porta se abriu, uma velhinha apareceu e abriu um sorriso que mostrava todos os dentes.
A moça entrou e obviamente entramos também. A casa por dentro era toda amarelinha e marrom claro. De novo a moça nos pôs no porta casaco e foi tomar chá com a velhinha que aparentemente era sua mãe .
A casaca começou a falar loucamente de como estava feliz em ser usada. Eu não estava querendo saber muito, porque ao meu outro lado estava uma guarda-chuva que era linda. Infelizmente, antes d’eu criar coragem para falar com ela, a moça, a moça muito bonita, pegou a casaca, me pegou e foi embora.
Chegamos em casa e a moça, a moça muito bonita, abriu um pacote que havia recebido pelo correio. Adivinhe o que estava lá! Um outro casaco e um outro guarda-chuva. Ela os experimentou na hora. Em seguida, viu que serviu, nos botou no porta casaco e saiu. Ficamos lá parados, sem ser usados pelo resto de nossas vidas.

Moral : Como é difícil a vida dos objetos que pertencem aos consumistas!

Uma história dura como pedra

de Dóris
Nasci, não sei onde, não sei quando, mas sei que nasci. Nasci bem grandona, e, ao contrário das pessoas, fui diminuindo com o tempo. Sim, sou uma pedra, e minha história vou contar.
Nasci no meio de uma estrada, vários cavalos e carroças pisavam em mim e nem ligavam, como se eu fosse uma coisa insignificante. Isso aconteceu durante anos e mais anos.
Um dia, um garotinho passou, me viu e me levou para a praia, achei que ele iria dar uma festa para mim, mas pelo contrário, ele me jogou no mar e eu afundei, vi peixes, anêmonas e outros animais, até que encostei no fundo e permaneci lá.
Uma outra vez, durante uma tempestade, uma grande onda me levou a uma ilha, onde não parecia haver ninguém, e eu pensei “que maravilha”. Só que naquela ilha moravam nativos e eles acharam que eu era um presente de Deus, já que ali na ilhota só havia árvores e areia. Eles me pegaram e me colocaram em um recipiente de vidro. Eu não queria ficar ali para sempre, então, dei um jeito de fazer com que eles me jogassem no mar de novo (não me perguntem como, foi meio constrangedor).
Fiquei lá durante dias e dias e, finalmente, cheguei em outra terra firme.
Uma menina me viu e me levou para casa. Ela me tratou muito bem, como se fosse sua filha, mas um dia...
-Maria, seu café está na mesa! - disse Dona Candinha, sua madrinha.
-Já estou indo, madrinha! - respondeu Maria.
-Dolores, passe logo este vestido, Maria precisa estar bonita para conhecer seu pretendente! - disse Dona Candinha à sua escrava .
-Madrinha, tenho apenas 15 anos, não quero me casar!
-Não discuta comigo, venha logo tomar café!
-Sim, senhora! - gritou Maria.
À noite, Maria foi ao baile conhecer seu pretendente, fui com ela, óbvio!
-Qual é a coisa que você mais ama no mundo? - perguntou Carlos Alberto, o pretendente de Maria.
-Minha pedra - disse Maria me estendendo para Carlos Alberto.
-Esta pedra?! - exclamou e gritou Carlos Alberto.
-Sim.
-Quando era pequeno, joguei esta mesma pedra no mar!
-Jura? Vamos jogá-la novamente!
Maria me pegou e me jogou lá longe, não acertou no mar, mas sim debaixo de uma árvore e assim outra história vai começar.

O vestido de noiva e o terno de casamento

de Nina
-Olá, crianças, hoje eu irei contar uma história muito antiga. A história de meu casamento!
-Eba!!!!!!!!
-Bom, tudo aconteceu há muito muito tempo...no dia que eu conheci o seu avô em uma loja. Uma noiva entrou na loja me pegou e o noivo dela pegou seu avô. Eles nos escolheram para casar!
-Mas, vovó, por que o vovô não te viu durante todo o tempo antes desse dia?
-Como você sabe disso? - perguntou a vovó.
-Eeeeu!!!!!! Não sei de nada, mas acho que na loja um ficava nas roupas femininas e outro nas roupas masculinas.
- É isso mesmo! Só nos vimos quando fomos para o alfaiate para os ajustes. E nós nos apaixonamos. Ficamos felicíssimos nesse momento em que soubemos que íamos nos casar no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo lugar e que íamos viver felizes para sempre... Bom, vamos continuar com a história mas, vamos avançar um pouco. Uma hora antes da cerimônia, eu estava muito, muito ansiosa! Na hora do casamento, eu estava radiante e ele estava lindo. O padre começou a falar e falar e demorou uma eternidade, mas, quando ele disse pode beijar a noiva, eu quase desmaiei. Foi perfeito!
-Bom, essa é a nossa história, agora vão dormir.
-Boa noite, vovó!
–Boa noite, netinhos!