Quanto tempo o tempo tem?


"Quando eu crescer... vou inventar uma mochila a jato. E ela vai ter uma calculadorinha que a gente escreve "Escola Sá Pereira". Aí a gente vai tão rápido, tão rápido que até a gente não vê."; "Às vezes o trabalho demora para as pessoas chegarem em casa"; "Memórias do Rio? Não é só pessoa que tem memória, não??!!"; "Quando foi que o mundo deixou de ser preto e branco e passou a ser colorido?"; "Quem será que veio primeiro, o vô, Deus ou o dinossauro?"; "O príncipe já tinha nascido quando a Bela Adormecida espetou o dedo?";"As coisas param quando a gente dorme e só voltam a funcionar quando fica de dia, de novo? Dentro da gente o coração pára de bater, a cabeça pára de pensar, o sangue pára de ir para lá e para cá e o estômago pára de amassar a comida?"

Não são apenas os físicos, filósofos, historiadores, matemáticos que refletem sobre o tempo, a história e a memória. Nossas crianças, também, se intrigam com os seus mistérios, articulam hipóteses e teorias que nos mostram sua forma peculiar de ver o mundo.

Indagações e afirmações como essas nos trazem inspiração para abordarmos o assunto que escolhemos como Projeto Institucional de 2009. O tempo, um dos temas sugeridos nas últimas reuniões de avaliação e planejamento, a princípio nos assusta pela amplitude; mas também nos instiga pelo quanto traz de possibilidades de desdobramentos nas diversas áreas do conhecimento e disciplinas escolares. Para os estudiosos que se dedicam a compreendê-lo, existe uma enorme abrangência, relacionada aos contornos que possam ser assumidos, tanto no campo da realidade natural e física como nas criações culturais humanas. Dependendo do ponto de vista, o tempo pode abarcar muitas concepções.

O tempo é, antes de tudo, um símbolo construído ao longo da história humana. É resultado de um longo processo de aprendizagem. Aprendemos a perceber o tempo a partir das experiências vividas. Desde muito cedo, nossa vida é organizada pelo outro, que nos provê e protege, a partir de uma concepção temporal. Esse processo de aprendizagem vai se dando de forma gradativa, sem que tenhamos consciência de sua apropriação. O tempo está tão integrado à vida que sequer sabemos como apreendemos suas marcações.

Provavelmente a noção de tempo nasceu da necessidade de conhecer e controlar os ciclos da natureza. Mas cada época, grupo, cultura, civilização teve ou tem formas próprias de compreendê-lo, vivenciá-lo e expressá-lo.

Refletir sobre o tempo é pensar sobre si, se conhecer melhor, compreender seu grupo, sua família, seu país, a humanidade, a natureza, que nos protege e ameaça, e as transformações que nela provocamos. É construir sua história, sua memória, mas também flexibilizar todos esses aspectos à medida em que se entra em contato com outras concepções diferentes.

Uma variedade de experiências de vida será necessária para que as crianças possam ir construindo a concepção de tempo. Nesse sentido, a escola poderá favorecer o processo procurando desenvolver atividades didáticas que envolvam diferentes perspectivas de tempo, tratando-o como um elemento que possibilita organizar os acontecimentos no presente e no passado; estudar suas medições e calendários em diferentes culturas; distinguir periodicidades, mudanças e permanências nos hábitos e costumes de sociedades; relacionar um acontecimento com outros acontecimentos de tempos distintos; identificar as atividades das pessoas e de grupos a partir de predominância de ritmos que mantêm relações com os padrões culturais, sociais, econômicos e políticos; observar as repetições dos fenômenos naturais, transformações na paisagem, nos seres vivos e materiais.

Esperamos, colocando o foco de atenção no tema, criar alicerces fortes para que as crianças construam conhecimentos nessas diferentes dimensões e direções para as quais o tempo aponta.

"Que é pois o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei."

Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, 14 (17)