F9M - 2019

Com o objetivo de aprofundar a abordagem do tema do Projeto Institucional, as turmas F9 se dedicaram a refletir sobre as ocupações das escolas, ocorridas em diversos lugares do Brasil em 2015 e 2016. Leram fragmentos do ensaio “Escola-corredor: uma Poética da Ocupação”, escrito em parceria por Isabella Dias, aluna do Colégio Pedro II, e Luiz Guilherme Barbosa, professor da Unidade Realengo. Para se inteirar da leitura, os alunos pesquisaram sobre as reivindicações dos estudantes; precisaram também exercitar outro ponto de vista acerca de estar na escola e dos modos de ocupá-la. Qual o papel dos alunos na manutenção do bom funcionamento da escola? Quais são os desafios e aprendizados da autogestão? Outra questão importante suscitada pela leitura foi a diversidade de saberes extracurriculares que os alunos adquirem no espaço escolar: nos corredores, no pátio e em outros espaços de convivência.
Nossos estudantes tiveram como tarefa escrever um texto relatando "saberes de corredor", fundamentais em suas formações como sujeitos. Essa reflexão feita pelas F9, turmas que completam o ciclo do fundamental neste ano, teve como horizonte a imagem da utopia, palavra empregada durante as ocupações de 2016 para nomear o fazer dos estudantes. Seu significado desconhecido nos fez caminhar e entender a necessidade de seguir caminhando em direção a uma vida comunitária melhor, fazendo caber cada vez mais pessoas em nossa coletividade.
(Professora Heleine Fernandes)

Currículo Existencial

Estrela
Escola corredor. Corredor Escola.
Sempre que pensamos nas palavras escola e corredor, costumamos idealizá-las como duas coisas completamente distintas e separadas. Como se a escola não fizesse parte dos corredores( ou vice-versa) como se aprendêssemos apenas no espaço de sala de aula. Entretanto temos muitos saberes de corredores que, com certeza, acrescentam em nossas vidas.
Acredito que em toda essa minha trajetória na Sá Pereira tive diversos aprendizados no corredor, porém, acho que o que mais me marcou foi no dia 13 de março de 2019.
Marielle, 14 de março de 2019, um ano se passou. Dia 13, eu e muitxs alunxs e muitas professoras se uniram para no dia 13 de março, 1 dia antes do assassinato da Marielle Franco. Neste dia, fizemos diversas homenagens para ela, como um sarau depois da aula, pixar acessórios com modelos das frases: “Marielle presente” e “Lute como uma garota”.
O momento que mais me marcou foi quando no corredor do último andar fizemos um jogral em homenagem à Marielle, está parte foi muito importante para mim.
Este momento foi um saber de corredor meu, pois, além de estar repetindo um texto de tamanha importância, estava absorvendo e refletindo sobre opiniões de outrxs colegas. Foi nessa hora que eu senti a união, a solidariedade, senti que realmente não estamos sozinhos, que ninguém irá soltar a mão de ninguém.
Acho importante pensarmos sobre como diferenciamos a sala de aula do corredor, como se eles fossem dois espaços completamente opostos e distantes, mas eles são tão próximos, que você nem imagina! Apesar desses aprendizados não estarem no currículo escolar, eles estão no currículo existencial, no currículo da vida.
(Estrela)

Batom Vermelho

Chapeuzinho Preto
A escola tem o propósito de ser aberto para todos, para opiniões, discussões, acertos e erros... Ao mesmo tempo é muito presa aos ensinamentos obrigatórios, o “currículo” escolar. Por isso, muitas vezes não notamos nem pensamos nos outros momentos que temos nos corredores, com os funcionários, com as pessoas de outras turmas, fora da sala de aula.
Eu, Lara, como estudante, nunca tinha parado para pensar nesses outros aprendizados ao conviver com pessoas diferentes de mim, em outros lugares da escola. Depois desse exercício, parei para pensar.
A Sabrina, por exemplo, me ensinou muito e ensina a respeitar e perceber mais as coisas ao nosso redor. Me faz perceber que um simples ato pode facilitar muito a vida de outra pessoa. Como quando alguém derrama água no chão, pode pegar um pano que está no armário do lado da sala e dá uma limpada. Isso ajuda muito o trabalho dela, precisamos notar mais as coisas e pessoas ao redor, saber valorizar.
Aprendi muito também a defender minhas opiniões e mostrar minha luta, assim aprendendo a me manifestar com todos os movimentos que nós estudantes e professores organizamos durante o recreio. Para falar e lembrar sobre coisas importantes para assim formarmos um país melhor!
Nos “corredores” aprendi a me posicionar como mulher e como pessoa. Como pessoa, me preparei para o que a vida pode me dar ou não. E que o batom vermelho e a cabeça erguida não podem nunca sair de mim!
(Chapeuzinho Preto)

Corredores Não São Apenas Para os Atravessarmos

Pena Ruiva
Todas as escolas seguem os chamados currículos escolares. Nas aulas, na maioria das vezes, surgem debates sobre diversos assuntos. Debates de professores com alunos, alunos com professores e alunos com alunos. Mas nas escolas, vários assuntos que surgem e que nos ensinam várias coisas não estão nas próprias salas de aula com todos sentados e (quase sempre) atentos. E, sim, nos corredores. Aqueles que atravessamos para ir para alguma sala, para o banheiro, para o pátio.
Nos corredores que eu já frequentei, com certeza, eu aprendi algumas coisas importantes que eu levarei para a vida, e outras que não foram necessárias na minha vida e que acredito eu, não serão úteis daqui para frente.
Para falar a verdade, eu nunca parei para pensar sobre os diversos aprendizados que eu fui colecionando nos corredores escolares que eu já estive.
Um assunto que na minha opinião foi muito importante de eu ter aprendido e que eu não aprendi na sala de aula, mas sim na prática no corredor, foi como devemos defender quem a gente gosta é importante. Aprendi que devemos ouvir os dois lados antes de julgar ou falar sobre tal pessoa. Que precisamos ouvir sobre o ponto de vista da pessoa mesmo já conhecendo ela bem. Como muitas pessoas falam e eu concordo, “ uma história contada,real ou não, não contém apenas um lado ”.
Existem os diversos assuntos que contamos ou nos são contados que, em vários casos, nos ensinam mesmo sem querer e de diversas formas diferentes. Um exemplo dessas experiências que os meus amigos me contam que já passaram ou quase viveram, me fazem pensar refletir sobre se eu quero passar por aquilo ou não. Por isso é importante ouvirmos sobre as experiências que os outros passaram. Não aprendemos só com os nossos erros, apesar de aprendermos demais com eles. Também aprendemos com os erros dos outros.
Conversas de corredores podem ser banais, cotidianas e até aprendizados para a vida toda. Aprendizados que, em certo momento, poderão ser muito úteis e cruciais. Por conta disto, não devemos só prestar atenção nas aulas que seguem um currículo. Mas sim, ouvir o que as pessoas têm a nos ensinar nos corredores da escola. Os nossos professores não têm apenas matéria a nos ensinar. Eles também possuem experiências e assuntos que os corredores nos permite aprender.
(Pena Ruiva)

O Que Você Faz na Escola Corredor

Todynho
O texto “escola corredor” se refere aos saberes obtidos no espaço escolar, ou seja, o que você aprende na escola, mas não nas aulas.
Eu aprendi fora das aulas a respeitar as pessoas e também aprendi a conversar. Na minha opinião, aprendi mais coisas com os faxineiros do que com os meus amigos.
A pessoa com quem eu mais aprendi fora das aulas foi a Sabrina. A Sabrina me ensinou tanta coisa, que até hoje não sei porque não agradeci a ela por tantos ensinamentos.Com ela aprendi a ter cuidado com as pessoas que querem fazer o mal, como fazer racismo, ser preconceituosas e matar pessoas inocentes. Infelizmente isso existe em nossa sociedade.
Acho que eu realmente aprendi muitas coisas com os trabalhadores que ficam limpando os corredores, as salas etc. Outra pessoa com quem eu também aprendi sem ser a Sabrina, foi o Hugo. Ele me ensinou as mesmas coisas que a Sabrina tinha me dito, como ter cuidado com os tipos de pessoas que vivem em nossa sociedade.
Eu, Jair, sou bom nessa “conversa de corredor”. Subo e desço as escadas da escola e acabo falando com alguém.
Nos corredores, nós não só aprendemos, mas também ensinamos algo para os outros. Eu particularmente ensino para os meus amigos coisas sobre esporte e também coisas de videogame. Essa troca de saberes é muito importante para todos.
Conclui , que as ‘’conversas de corredor’’, servem também para fazer mais amizades e saber coisas que estão acontecendo no nosso dia a dia em nossa sociedade.
Já estava me esquecendo de dizer que algumas conversas de corredor fizeram com que a minha vida mudasse.
(Todynho)

Sem Título

Os corredores são lugares curiosos. Eles, inicialmente, só serviriam como meio de se locomover de um cômodo onde as coisas, inicialmente acontecem, a outro. Como eu disse, “inicialmente”. Os corredores não são só um caminho vazio, justamente por levarem um lugar a outro. Eles ficam entre esses lugares, esses lugares onde as coisas acontecem.
O corredor escolar, como qualquer outro, carrega pessoas, que carregam alegrias, tristezas, medos e amores. Carregam vergonhas, coragens e muitos, muitos segredos.
Ironicamente, a única coisa que liga as salas, as pessoas, os corpos, é também o que as separa.
Os corredores são a voz de uma escola, onde saímos do modelo tradicional de sala, aluno, professor. Neles somos espaço, corpo, corpo. Cada corpo com seu conhecimento, vivência e opinião. Cada corpo com seu tempo vivido por corredores. Corpos tão diferentes, mas tão iguais.
Nos corredores escolares, convivo com todos os corpos que estiveram lá, aprendendo a respeitá-los e a entendê-los. Nunca completamente, até porque, como corredores, corpos guardam muitos, muitos segredos.
Nos corredores, aprendo a me sentir igual, nem melhor, nem pior que outros.
Nos corredores, aprendo com todos, de todos, por todos e sobre todos. Sobre corpos.
O corredor é um grande corpo.
(Navegantes)

Vivências

Minerva
Aprendi muito desde que entrei na Sá Pereira, tanto nas aulas quanto nos tempos livres. Sinto, contudo, que os conhecimentos passados em sala de aula tratam-se, no geral, de uma grande teoria. Os momentos fora de sala de aula, por sua vez, são a prática, quase como a “vida real”, onde aprendemos a usar os conhecimentos de sala e, assim, adquirimos outros conhecimentos também muito importantes. A prática é como se fosse uma fase mais avançada, o amadurecimento e desenvolvimento dos conhecimentos teóricos, o que resulta no próprio amadurecimento da pessoa.
As relações que se constroem nos corredores também são extremamente importantes. Agora não somente professor-aluno, como é proposto, mas aluno-aluno, aluno-funcionário e até aluno-professor, fora do contexto tradicional: conversas que se expandem para além do conteúdo curricular. Cada indivíduo que compõe a escola tem a sua trajetória de vida, com experiências e opiniões diferentes. Os corredores são o ponto de encontro das salas de aula, da cozinha e dos banheiros. É lugar de partilha, de convívio social. É o local que dá voz aos alunos e aos funcionários, lhes dá a oportunidade de dizer e ensinar o que aprenderam com a suas trajetórias de vida social pessoais. É uma vivência onde podemos ver o papel ativo e fundamental do aluno na escola, o seu potencial de transformação. O aluno também tem muito a acrescentar.
Nos momentos fora de sala de aula aprendi a conviver com pessoas diversas, a defender a minha opinião e aprendi o que é o status. Aprendi a me relacionar com meu corpo de diversas maneiras, aprendi algumas danças e diversos jogos, como pique-manteiga, bumburundinha, futmesa, a jogar três cortes e rodar bambolê. Aprendi a ter força de vontade, a me impor. Os momentos fora de sala de aula são fundamentais para o conhecimento e amadurecimento de todo indivíduo que frequenta o ambiente escolar.
(Minerva)