Nós: saber conviver, saber cuidar


“Nosso belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio.”
J. L. Borges

Se olharmos o labirinto como o nosso mundo, repleto de caminhos e versões, crenças e dúvidas e pensarmos o fio como o conjunto de crenças que nos orientam em nosso caminhar, poderemos ouvir, no que está atrás, os clamores e gritos dos que nos precederam.

Alguns são claros e relativamente recentes. Um nos exorta à “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Mais forte, ali, era o clamor pela Liberdade. Depois de uma mortandade quase nunca vista na história humana, ouvimos que “Todos os homens nascem iguais...” Nesses dois momentos, reacendida a esperança, acreditamos estar entrando em um novo tempo, nos aproximando da paz, de um mundo mais justo.

Não desapareceram nem o labirinto nem o fio e, apesar das declarações, percebemos o que não havia deixado de existir. Os conflitos, as guerras, a fome, as migrações, os sem pátria, as discriminações de cor, gênero, religião, pensamento, os fanatismos que acreditam que fins justificam meios.
Assim, constatamos que a  liberdade e a igualdade ainda eram sonhos e a fraternidade uma promessa fugidia.

Hoje, bem onde estamos, perdidos nos desvãos de nosso labirinto, torna-se mais nítida uma outra variável. O local onde vivemos, que sempre consideramos feito para nos proteger e servir, com seus recursos que nos pareciam infinitos, começa a dar visíveis sinais de que não suportará esse nosso caminhar. A diversidade de espécies e a estabilidade do clima estão ameaçadas. Nós, humanos, que sempre dependemos delas, nos descobrimos parte inseparável dessa rica biodiversidade que habita o planeta. Um sistema integrado de vidas interdependentes.

Acreditamos que pertencemos uns aos outros. Possuímos a capacidade de criar uma multiplicidade de culturas, de fazer escolhas, de transformar. Nossas ações podem fazer a diferença. Mas para isso precisaremos criar um compromisso verdadeiro com todas as formas de vida.

Vamos precisar aprender a desatar os nós. A conviver e a saber cuidar. Precisaremos desenvolver a curiosidade, o senso de justiça, a aptidão para imaginar a vida na pele de cada um dos outros, humanos ou não.

Precisaremos criar um compromisso com a vida e lutar contra as agressões a ela, de onde quer que venham. Conhecer nossos direitos, mas, principalmente, nossos deveres. Exercer uma cidadania pautada numa ética, consciência e solidariedade planetárias.

É o nosso convite a todos que convivemos na Sá Pereira: fazer, a cada dia, a possibilidade de um novo amanhã.

“É tão bonito quando a gente entende,
que a gente é tanta gente,
onde quer que a gente vá.
E é tão bonito quando a gente sente,
que nunca está sozinho,
por mais que pense estar.”


Gonzaguinha.